sexta-feira, 14 de maio de 2010

Casadinho

Algumas pessoas encontramos sempre e não conhecemos. Almoçávamos no mesmo lugar. Ele não era um tipo que chamasse à atenção. Homem comum, estatura mediana, uns 10 anos mais velho do que eu. Um dia resolveu falar comigo. Perguntou as horas e eu dei conversa. Dia seguinte me chamou pra um café.
Ele não me atraía sexualmente, mas senti uma curiosidade sobre ele. Descobri que sua profissão exigia extrema concentração e precisão. Ele quase nem falava, durante horas. Pensei que era timidez, mas era dedicação, mesmo.
O café evoluiu para um chopp. Ele não perdeu tempo, deu uma bela olhada no meu degote e fez um comentário de tirar o fôlego.
Mas, ainda assim eu achava impossível ter algo com ele. O cara foi paciente. Um dia ele confessou que estava de olho em mim há muito tempo. Eu não tava levando muita fé naquilo... Mesmo sem tesão aceitei o convite pra passarmos uma tarde no motel. Inteligência e competência podem ser afrodisíacos.
Quando eu cheguei lá, para minha surpresa a suíte tinha sido preparada com flores, sais, incensos e as coisas mais deliciosas pra se degustar. Um verdadeiro banquete.
A tarde foi deliciosa, o amante não deixou a merecer, o banquete muito menos. Fim de tarde e percebi certa apreensão da parte dele. Disse que estava tudo muito bom e que eu gostaria de passar a noite ali. Ele disse que não poderia ficar comigo então fiz a peguntinha básica: você é casado? e a resposta foi SIM. Eu dei uma risadinha nervosa. Não disse mais nada e meti na cabeça que não ia mais procurá-lo.
Naquele fim de semana eu tinha uma festa na casa de uns amigos e imaginem quem eu encontro? Sim, ele. Resumo da ópera? Passamos a noite juntos. Na verdade, todo o fim de semana. O homem beijava muito. Era muito dedicado ao meu prazer. Caprichava nas preliminares. Gentil mas com atitude. Sabia a hora de tirar e botar, além de um delicioso repertório de posições.
Mudei de restaurante, de trajeto e até de profissão. Comecei a namorar outra pessoa, terminei, o tempo passou e nunca mais tive noticias do casadinho. Passado uns tempos, estava tomando um café e quem entra na confeitaria? O próprio. Não pude esconder minha surpresa e ele já foi se convidando pra sentar comigo. Conversamos amenidades e lá pelas tantas, ele passa a mão por debaixo da minha saia, numa pegada... e diz: saudades...
Eu ia falar qualquer coisa mas fiquei desconsertada. Ele se divertia com isso. Me passou um cartão com um endereço e disse: te espero lá amanhã, as 14. Se levantou e saiu. Fiquei ali meio de boca aberta. Acabei meu café, resolvi nao pensar naquilo e o dia seguinte chegou. Como se não houvesse mais nenhum obstáculo, era impraticável minha saída do trabalho naquela tarde. Fiquei tentando imaginar o que eu ia fazer e pensei que eu não tinha que fazer nada, pois ele nem havia deixado um telefone pra eu entrar em contato. Dai me dei conta de procurar o tal endereço na internet. Era de um Hotel próximo. Pensei: que pena ele vai esperar a tarde toda...
Lá pelas 13h aconteceu uma coisa estranha. O alarme de incêndio disparou e foi um tumulto geral. A Defesa Civil foi acionada, a Policia Federal, helicópteros e o diabo a quatro. 13:40 da tarde, um tedéu. A gente torrando no sol sem perspectiva do horário de retorno. Eu tava muito aflita e minha chefe notou e disse: se acalma filhota, não é nada, vai dar uma banda, tomar um suquinho. Te dou um toque no celular quando voltarmos. Dei um super sorriso, agradeci e sumi.
Não levei 10 minutos pra chegar ao Hotel. Fui correndo, o coração parecia que tava lutando boxe com as costelas. Quando entrei, meu celular tocou. Pensei que e era minha chefe, mas era uma mensagem com um número... o número do apartamento. Subi. Fui pela escada para poder me acalmar no caminho. Pensei que o Hotel inteiro podia ouvir meu coração. Eu estava com tesão misturado com pânico. Parei um andar antes e tirei minha calcinha. Logo eu estava diante do apartamento. Bati na porta uma única vez e ela se abriu. Ele me esperava com um sorriso bem safado e uma garrafa de frizante na mão...

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